CIMENTO

Reunindo artistas de diferentes gerações, a exposição Cimento congrega quatro propostas especificamente concebidas para a Sala do Veado, no Museu de História Natural e da Ciência em Lisboa. O título da exposição remete para a singularidade do lugar que a acolhe. A fisicalidade da sala, associada ao revestimento das paredes em cimento, condiciona à partida a exposição que aí vier a ocorrer. Com base nesta premissa, os quatro artistas pensaram as obras sob a égide de um material – argamassa que permite unir, fundar e consolidar um lugar, leia-se, um lugar de ressonâncias e vibrações que necessariamente exige um contra-ponto: a partilha de saberes com os seus pares.

No seguimento disto, a exposição foi pensada não só a partir do espaço arquitectónico mas também do conjunto de materiais, técnicas e metodologias aplicadas na concepção, projecto e edificação do espaço. As obras de Carlos Nogueira, Igor Jesus, Inês Moura e Luisa Cunha demonstram que o campo da espacialidade continua a ser um terreno fecundo para a reinvenção das gramáticas artísticas. No quadro de desafios, contaminações e vertigens que aquele campo proporciona, os quatro artistas, permanecendo fieis às suas próprias linguagens, não pretendendo adaptar-se mimeticamente ao lugar, arriscaram construir um outro espaço sem erguer fundações, sem recorrer a cimento algum.

Com recurso a materiais oriundos do universo da construção e processos provenientes do projecto e concepção do espaço, os procedimentos e gestos intervenientes na representação artística são tão minimalistas, quanto eficazes. Trata-se, muitas vezes, da sobreposição de planos e materiais, da produção de paisagens edificadas e simultaneamente irreais que conferem às obras um carácter político e simultaneamente poético, fazendo interrogar o mundo e as formas possíveis de o sedimentar.

Curadoria: Sara Antónia Matos