João Silvério – A Viagem da Sala 53

A obra de Igor Jesus “O lado escuro da Lua” é apresentada neste livro sob uma perspectiva participativa. Os registos, as polaroids, o desenho enquanto esboço preparatório, ou as breves notas contendo informação necessária à construção da instalação constituem o conjunto documental inerente ao seu processo de trabalho.  Este arquivo de originais, disperso de forma aleatória em cada um dos exemplares desta edição, e disponibilizado de forma gratuita pelo artista, faz-nos reflectir sobre o valor económico de um registo autoral, bem como sobre a relação de partilha desse arquivo invidual na sua recepção pública.

Notas

1, viajar. a ideia de viagem, como fio condutor da exposição, ocorreu-me no primeiro instante em comecei a trabalhar com os artistas, a ver que obras estavam a desenvolver, a conhecer novas obras, ou a revisitar outras descobrindo e recuperando uma outra atenção para o sentido que a primeira deambulação terá deixado para trás. e por mais que se pense conhecer o seu trabalho há sempre uma necessidade de voltar e de retomar os vários itinerários que cada processo, ou cada método, pode revelar.

1,1 quando se fala com alguém sobre o seu arquivo, lato sensu, estamos a chegar a uma fronteira que nos separa do seu universo pessoal, do seu espaço de trabalho e do seu imaginário, um campo subjectivo e profícuo da intimidade cujas afecções podem denunciar formas distintas de (des) arrumar as nossas ideias e o nosso olhar. assim, esta ideia de arquivo (entre aspas) não se circunscreve a uma materialidade organizada e serial. Não se procura aqui o inventário subjectivo, nem tão pouco a busca de uma compliação de imagens ou de ideias que em cada trabalho percorre um tema ou uma tendência estílistica.

1,2 pelo contrário, concorre para formarmos uma topografia da intencionalidade que cada artista desenha nos procedimentos e na clarificação que cada projecto vai revelando na sua relação temporal com a memoria e com aquilo que se guarda, ou junta, delimitando por vezes um território próprio no planisfério do seu trabalho que a um dado momento se abre como percurso e como itinerário prospectivo.

1,3 a sala como lugar para a viagem. como ponto de partida. sem cais de chegada. a viagem começa e nao se detém mais, é uma cápsula, antecâmara, espaço, heterotopia, proximidade e distância entre eixos geográficos e coordenadas temporais. mensagens, escritos, imagens, objectos, datas, anotações. passar, festejar, ler, ouvir, escutar, olhar, ver, parar, voltar de novo.

1,4 walter benjamin, uma passagem, uma ligação numa rua de sentido único como o tempo e a incapacidade de nos separarmos da memória e a absoluta necessidade de a sentirmos como o presente. A memória é o presente, o legado ou a herança são por vezes o passado, um lastro ou um caminho entre duas colinas. a memória que se assemelha a si mesmo, se espelha, como um espectro, um fantasma ou um afecto que nos faz o relato do tempo.

1,5 “Thinking is a search for siblings. There can be no thinking, at least not the kind of thinking that unfolds in the philosophical and literary writing, that will not have turned upon finding a sibling. Thinking, and the thinking of thinking of, by, for the sibling. It is the searching thinking that seeks connections with the sibling as the one who is related yet different, related in difference, and both the same and different in relation to the common parent whose existence both unites and divides the siblings. This thought seeks to establish relays, to articulate relations, mergins with and departing from what is closest to it. It seeks a sibling to sustain it, an other who will read along even in the absence of their father’s guarantees, in a gesture that also works to maintain the distance between the siblings. This thought seeks to erase difference in order to join its sibling completely in a fraternal embrace while, at the same time, perpetuating the difference that separates it from its sibling in order to establish itself as the one who differs. No literature without siblings, no philosophy without siblings, no thinking without siblings. Thinking is a search for siblings. Yet if thinking is a search for siblings, it also depends on finding the rigth distance – abstand – from these siblings.”

1,6 (Kindle Book) um excerto de um texto, mais amplo, de Gerhard Ricther intitulado “A Matter of Distance: Benjamin’s One –Way Street Througth the Arcades”. o sétimo capítulo do livro editado por Beatrice Hanssen, Continuum, Londres e Nova Iorque de 2006.

1,7 a escolha dos artistas

1,8 a viagem da sala 53, o título.

1,9 as obras seleccionadas e discutidas com os artistas. as que ficaram de fora. a dimensão da sala, a sala ao lado. a outra exposição que só agora conhecemos.

2,0 os processos de trabalho, a procura constante. a relação próxima, quase familiar, quase orgânica com os registos, com um desenho para o qual é necessário partir e procurar. as imagens dos lugares sem nome, expurgadas de qualquer referência. o que os objectos já foram e o sgnificado que adquiriram no processo criativo que cada um dos autores acautelou recontextualizando cada um deles, em conjunto, em série, como uma obra, ou como um projecto que se reconfigura no tempo agregando e inscrevendo outros lugares e outras referências.

2,1 ana vidigal, “Há o amor, é claro. E há a vida, sua inimiga”; igor jesus, “O Lado escuro da Lua” + “Novo dicionário de conversação”; karlos gil, “In Every Room there is a Ghost of Time”; nuno nunes ferreira, “primeira semana de liberdade” + “Festa”; vasco barata, “Shades of Gray”.

2,2 as obras e os autores, o sentido da viagem.

2,3 a permanência do desenho numa obra que se tem desenvolvido a partir de imagens. A reinterpretação do desenho que a obra de ana vidigal nos propõe para a exposição. o uso da côr. os objectos encontrados – guardados, arquivados – o arquivo arquivado, armazenado. a espera. todo o desenho instalado sobre a parede faz-nos reecontrar com o seu domínio da escala e da proporção, tantas vezes presente nas pinturas, nas colagens, nos objectos. independentemente da sua dimensão. não se trata de saber se são obras de grande ou pequena dimensão, mas de que forma os diferentes elementos se relacionam sobre o suporte, as ligações pintadas ou desenhadas. a composição. a serielidade presente nas suas obras, as imagens que se repetem (que não se repetem), mas que geram um ritmo e uma sequência jogando com a semelhança.

2,3,1, O arquivo de uma empresa, o trabalho. o formato homogéneo, as linhas manuscritas, a vida ou os afectos. o título da obra “Há o amor, é claro. E há a vida, sua inimiga”, a ambiguidade e a ironia que as suas obras presentificam para nós como um passo temerário que antecede o seguinte que pensamos firme e seguro. A construção do desenho que nos confronta com o pé direito da sala. As linhas cruzdas que se elevam do chão, as anotações escritas, a mão firme que as escreveu, hoje e doravante o desenho que elas são.

2,4 a relação com o espaço. a escultura, a ocupação desse espaço. os objectos domésticos. frigoríficos e uma tela/objecto. o desenho agora revelado, as entranhas técnicas que o conforto doméstico esconde. a recolha. as ligações anónimas e pessoais na sua procura, a construção da escultura e a sua relação com o espaço da galeria. a funcionalidade desse espaço, o corredor de luz que igor jesus provoca com esta obra intitulada “O Lado escuro da Lua”, a relação interior vs. exterior. a luz no lugar dos víveres, os volumes negativos sem luz no lugar da permanência, os congeladores cegos. a temperatura ambiente. o desperdício, o objecto obsoleto, o lado avesso, o contarverso do consumo, o quotidiano desvitalizado, os lugares comuns, a memoria sem lugar. um recado. um leve rumor, uma sonoridade que nos faz recordar algo. de novo a memoria, o presente.

2,4,1 o apêndice escrito para situar a acção deste artista na sua página deste livro. uma sebenta de notas. uma página cuja imagem se pode tornar ausente. a posse anónima de um original. imagem, desenho, polaroid. registos do arquivo.

2,5 qual a correpondência entre o modelo do móvel desenhado por Erno Goldfinger, arquitecto modernista, e os outros objectos da instalação que Karlos Gil apresenta sob o título “In Every Room there is a Ghost of Time”? que paradoxo nos propõem este artista realcionando o modelo de um original (com a escala reduzida) com objectos de outras proveniências e outras épocas? a relação com o tempo histórico como transitoriedade do significado e do simbolismo que as imagens e os objectos transferem para o espectador parece evidente. vejo aqui o espectador como um decifrador, um construtor de narrativas em permanente trânsito, em movimento entre intervalos de tempo. As diferentes referências, a alteração dos objectos e da sua quantidade, que em cada exposição adquirem uma nova configuração obedecem apenas à permanência desse modelo de um arquivo. um objecto de mobiliário. um lugar do que é perene, mas que neste caso pode ser o outro daquilo que significa. acompanha a mudança e faz parte dessa mudança, mas contém o referente.

2,6 documentos históricos, jornais diários, acontecimentos, mudança de vida e de paradigma. o regime, aquilo a que se chamava o regime. o fim do regime. a revolução.

2,6,1 nuno nunes ferreira. a memoria como local de trabalho, como campo de possibilidades, como revisitação permanante. como actualização. uma semana pós-revolucionária. o imaginário da festa política exposta sem poder ser lida ou escutada. “primeira semana de liberdade” e “Festa”, duas obras sobre o mesmo tempo, transportando consigo memorias proximas, quase gémeas, entre a liberdade conquistada e a liberdade prometida e gritada em altifalantes de uma campanha política. os jornais, amordaçados nas molduras, documentos encerrados na sua figuração fragmentada, como bocados, um por cada dia de uma semana de liberdade. o calendário enunciado pelo frontespício, a condição do documento enquanto indício da memória. o documento exposto como um objecto intocado e ilegível. a ambiguidade do espécime que não prentende ser prova mas apenas um sinal. uma possibilidade da viagem enquanto activadora da memoria do espectador. sem guião. os altifalantes/balões que já transitaram em automóveis. mensagens de união que agora residem fora do alcance da  mão, no alto da galeria. a transmutação desses objectos em outros que assemelhamos a outros. a importância da imagem (do imaginário?) sob a qual recombinamos o significado, o referente e a ironia.

2,7 uma série de fotografias surdas. vasco barata.

2,7,1 surdas, sem eco, sem identificação, desterritorializadas, sem lugar de referência mas que convocam uma outra noção de tempo e de lugar através dos objectos visíveis sob o olhar do artista. o tempo e o lugar são assim o correlacto fragmentado de momentos que indiciam modelos históricos e referências ligadas à arquitectura ou por vezes ao design de equipamentos. à paisagem urbana, à solidão, ao objecto fotografado e à passagem fugaz de anónimos que deixam sinais, registos e restos de acções que se transformam em imagens abstractas. as fotografias da série “Shades of Gray” são espectros das próprias imagens. o título da série, o título de cada imagem como se cada uma, impressa sobre alumínio a uma só côr, fosse o registo último (e único, provas únicas) e o fragmento irrepetível. como é caratrística da imagem fotográfica. como o é também da memoria. do arquivo. da relação que temos com o tempo. da necessidade de o actualizar. nestas imagens, da impossibilidade de estabelecer ligações, geografias, cronologias. reconhecemos o instante actualizado como presente, espectral e fantasmático como está inscrito no próprio título.

2,8 regressar daqui a uns meses entre montagens de uma outra expoisção. A sala vazia.